Eliminar o COVID19: timing e deslocações

Há um número que pode ser calculado todos os dias e que nos diz a taxa à qual o vírus se transmite, o número básico de reprodução. Diz-nos qual o número de pessoas, em média, que uma pessoa infetada contaminará numa comunidade i.e. um número de reprodução pessoa-pessoa. Esse número chamado de número básico de reprodução, Rt, o número de reprodução num determinado dia t, é o valor atualizado da taxa de transmissão num dado momento. Varia consoante as medidas de controlo da epidemia, isolamento físico, quarentena, restrições de viagens e mobilidade, encerramento de escolas, uso de máscaras, etc, ...

Precisamos assim de saber em cada dia qual é a real capacidade do vírus em se propagar e consequentemente perceber este número de reprodução efetivo Rt em cada contexto particular, seja de um país, região ou cidade e comunidade.

Não só o levantamento das restrições a que voluntariamente nos temos submetido depende do conhecimento deste número como também a imposição de mais restrições depende dele. Como esse número de reprodução efetivo depende das condições locais e culturais onde o vírus se propaga então segue que não há um cenário que dê para todos através de um simples copy&paste. Uma solução que funciona para uma dada região ou comunidade não funcionará sem modificações específicas noutra.

Uma coisa parece certa em qualquer um dos cenários preferidos, o regresso à vida normal será concretizada por ciclos de abertura-fechamento até que se atinja a imunidade de grupo ou se descubra uma vacina.

Para isso precisamos de fazer umas contas e de saber como estimar Rt em cada dia.

Precisaríamos assim de considerar a transmissão da doença entre indivíduos dentro das comunidades e também entre comunidades diferentes. Aqui entenda-se o termo comunidade como uma partição da população onde o contacto social ou de deslocação entre membros é maior do que entre duas comunidades. E.g. zona metropolitanas. Esta ideia é essencial para se definir o isolamento sanitário, como o vírus se propaga utilizando um hospedeiro, restringindo naturalmente a duração de viagens em momentos críticos da evolução, reduz-se a propagação e consequentemente o número básico de reprodução.

O COVID19 pode ser assim eliminado se o número de reprodução comunidade-comunidade for menor do que um i.e. o número esperado/médio das comunidades que podem ser infetadas por um única comunidade.

Se conseguirmos determinar esse número de reprodução comunidade-comunidade podemos usá-lo para justificar as medidas de contenção a que voluntariamente nos temos imposto.

Esse número foi estimado num artigo recente com título "Eliminating COVID-19: The Impact of Travel and Timing" e está disponível para download no arquivo de preprints arXiv.

Esse número de reprodução comunidade-comunidade é proporcional à taxa de viagem entre comunidades e exponencial no atraso de tempo na tomada de ação sobre uma comunidade.

Assim a redução de viagens e a velocidade com que as comunidades tomam decisões têm um papel decisivo no controlo e fim da epidemia.

A análise sugere também que não é necessário impor medidas agressivas de afastamento social em todo o território ao mesmo tempo para eliminar o coronavirus mas apenas nas comunidades onde se detete a contaminação. Quando mais cedo se implementarem essas medidas nas comunidades infetadas mais pequena será a duração da manutenção dessas restrições sanitárias. Se agirmos rápido nas comunidades infetadas, incluído as que serão infetadas no futuro, o número de comunidades com infeções ativas, e logo o número de comunidades onde é necessário intervir, decairão exponencialmente com o tempo. A eliminação neste caso mantém-se, é um ponto fixo da evolução, mesmo depois das restrições de distanciamento físico terem sido levantadas.

Criado/Created: 27-04-2020 [09:24]

Última actualização/Last updated: 24-06-2020 [09:15]


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(c) Tiago Charters de Azevedo