Dose diária recomendada

Imagem: Knuth's Downloadable Graphics page.

Notas em cerca de 1600 caracteres. Coisas poucas que entretêm e espalham incomodações a quem delas precisar e sempre em nome pessoal porque é sempre bom dizer ao que vamos e quem somos para que não fique nada por dizer.

As doses antigas estão arquivadas de uma forma não linear. O RSS está aqui.

RSS


O neoliberalismo funciona
2020/05/28-21:22:38

... em simultâneo com democracia apesar de ser profundamente não-democrático. Usa manobras de diversão que distraem a população do acesso à informação e despreza fóruns públicos relevantes para a participação cívica colectiva.

Isto mostra o quando não basta para ser ter uma democracia ter-se apenas votado. Falta tudo o resto. Não basta eleger é essencial participar.

Como todo o neoliberal acredita que a obtenção de lucro é a essência da democracia qualquer governo que se desvie de políticas de mercado, ou de apoiar o "mercado", é considerado anti-democrático i.e. entre "nós" a direita alternativa usa a designação de socialista, independentemente do suporte democrático esmagador que tenha.

Por isso, dizem, é melhor restringir a acção do governo à manutenção da propriedade privada, do privilégio e a imposição de contratos abusivos sobre os trabalhadores e limitar, ao mesmo tempo, o debate político a questões menores.

Porque as questões importantes, de produção, distribuição de riqueza e organização social devem ser determinadas pelas forças do mercado. Assim vamos.


Trabalho e autogestão
2020/05/24-10:41:30

Proudhon explicoria a sua versão, em que consistiria essa autogestão dos trabalhadores.

Assim todo o trabalhador

Ainda sobre os lugares de coordenação/"chefia"

E a importante condição de cada um ser livre de estabelecer as suas horas de trabalho e de desempenhar as suas obrigações. Indispensável também a liberdade de abandonar a associação de trabalho a que se submeteu voluntariamente segundo a sua vontade.

Proudhon reafirmava a necessidade, urgente na altura e agora também, da necessidade de conhecimento científico e técnico e que deveria ser trazida para os programas de autogestão dos trabalhadores. E até na transição que se deveria trazer e pagar a quem ensinasse esse tópicos pagando-lhes um salário: há lugar ao sol para todos na revolução. Muito diferente defendiam Blanquitas.


Valeu a pena?
2020/05/22-09:22:29

Umas das questões relevantes de comunicação, no controlo da contenção da propagação da epidemia e sua justificação, é saber-se como estimar quantitativamente a influência das medidas de contenção a que voluntariamente nos temos submetido para controle da evolução da epidemia. É uma questão relevante sabermos se os sacrifícios que temos feito valeram a pena e se de facto valeu de alguma coisa o termos ficado em casa. Do ponto de vista qualitativo parece que conseguimos achatar a curva e reduzir, e bem, o sofrimento, o número de óbitos e salvaguardar os que mais necessitavam de ajuda e as suas famílias. Fizemos bem.

No entanto, na ausência de explicações quantitativas dadas pelas Direção Geral de Saúde (DGS) e na fragilidade operacional dos dados que nos chegam publicamente todos os dias precisaríamos de muita água benta para simplesmente aceitarmos os relatos diários nas conferências de imprensa como a última e definitiva versão dos factos.

Façamos então umas contas com o seguinte objectivo: encontrar uma forma, com os dados públicos que temos, de determinar a evolução da epidemia e estimar o que aconteceria se num dado dia tivéssemos abdicado das restrições a que auto nos infligimos. Há quatro datas importantes:

Com estas quatro datas podemos tentar perceber o que aconteceu. Para além do número total de infectados, que nos é dado pelo relatório da DGS, precisamos de saber dois números: o número básico de reprodução R0 e o seu valor efectivo diário Rt.

O valor de R0 diz-nos a taxa à qual o vírus se transmite, qual o número de pessoas, em média, que uma pessoa infetada contaminará numa comunidade onde não existe imunidade. O valor de R0 pode variar de país para país, de região para região, devido a flutuações na distribuição de idades ou diferenças culturais de interação social. Para Portugal a estimativa dada pela DGS1 para R0 é aproximadamente igual a 2.08.

Ou seja, a dia 1 de março tínhamos 1 infectado, no dia seguinte 2 novos casos, depois 4 e depois 8, e assim por diante R0, R0^2, R0^3, ... uma progressão geométrica de razão R0. O número acumulado ao fim de N dias é a soma dos N termos dessa progressão

R0 + R0^2 + R0^3 + ... + R0^N =(R0^N-1)/(R0-1).

Matéria do programa de matemática do 11º ano de escolaridade obrigatória ;)

A versão efetiva deste número, Rt, i.e. o número de reprodução num determinado dia t, é o valor atualizado da taxa de transmissão num dado momento. Varia consoante as medidas de controlo da epidemia, isolamento físico, quarentena, restrições de viagens e mobilidade, encerramento de escolas, uso de máscaras, etc,... Este tem de ser calculado com os dados que nos são divulgados pela DGS. Sabendo-o podemos aferir das eficiência das medidas que implementamos (há uma questão do atraso relativamente à implementação das medidas e a sua observação... mas isso requer outros parâmetros de análise).

A figura seguinte mostra a estimativa de Rt ao longo dos 61 dias de epidemia. O gráfico difere daquele oficialmente apresentado pela DGS e está relacionado com o segundo valor de que precisamos, o tempo característico de propagação do vírus que depende, como o Rt, das circunstâncias locais onde o vírus se propaga. Como não tenho maneira de o estimar vou assumir que o tempo característico de propagação é da ordem de 7 dias. Suspeito que a estimativa2 da DGS andará à volta dos 3 dias3.

Podemos assim verificar o que aconteceria se num dado dia, e.g. a 16 de março quando as escolas fecharam, as escolas não estivessem fechadas. Qual seria o comportamento do número total de infectados se nada tivesse sido feito? A resposta é dada pela curva a laranja.

E o que aconteceria se o Estado de Emergência não tivesse sido implementado? Resposta na curva a roxo. E assim por diante.

O que este exercício mostra é que a evolução passada da epidemia não é compatível com a evolução básica geométrica do modelo simples mostra apenas que as medidas de contenção tiveram efeito na evolução.

O que aconteceria se o "pico" não tivesse existido? A curva a negro o que aconteceria se nada tivéssemos feito.

Podemos então responder à questão inicial.

Valeu a pena?

Valeu. Vale.

Nota

Depois da partilha deste texto surgiram algumas questões relacionadas, argumentando que sobre o facto da não existência de experiência sobre a não concretização das medidas não se poderia concluir o efeito de crescimento básico que o número de reprodução indica por não se ter aplicado a medida de contenção. É uma boa crítica. Foi sugerido que se fizesse uma análise contra-factual utilizando uma abordagem Baysiana estimando em cada dia o valor mais provável, usando uma função de máxima verosimilhança, para o número de infectados dia a dia.

Assim como a resolução do paradoxo de Hempel mostra, que o facto de maçãs verdes validarem, por não serem pretas, que todos os corvos são pretos, têm pouca importância para a discussão sobre a evidência se todos os corvos são pretos (como mostraria a prova contra-factual) e porque são de facto pretos, assim também a contra-factual neste caso, por existir um modelo epidemiológico, a contribuição da contra-prova neste caso mostrará que a informação obtida por esse exercício pouco validará a evidência explicada: que as medidas de contenção tiveram efeito na evolução.


Notas e referências

1. Relatório sobre a aplicação da 2.a declaração do estado de emergência, 3 de abril de 2020 a 17 de abril de 2020

2. Plano de Desconfinamento, Conselho de Ministros, 30 de abril 2020

3. O gráfico referido é este (da referência 2.).

A minha estimativa com 2.5 dias é esta.


De tudo ou nada
2020/05/13-16:34:50

O português médio pouco ou nada sabe das razões científicas que suportam as tomadas de decisão políticas sobre as restrições que nos temos auto imposto. Mas sabem facilmente prever quais as restrições financeiras do impacto destas restrições. Mas algo me diz que entre salvar aqueles que mais gostam e a economia, de que bramam tantos insensíveis, preferem apoiar os primeiros.

Até porque, para vida de todos os dias, no standard na normalidade, muitos contam com o apoio dos mais velhos para sobreviverem, para levarem os miúdos à escola, para ajudarem com as contas no fim do mês. Se não fosse por isto, por quererem estar com eles mais tempo, diria, por má língua, que é o capitalismo estúpido que os obrigar a esta escolha. Só que não. Eles sabem. Nós sabemos. E ainda bem.

Há positivos e negativos na ação política nas decisões que se tomam acerca do coronavirus, o mesmo acontece com qualquer decisão política.

Podemos afirmar que todos queremos a mesma coisa em simultâneo, prevenir mortes causadas pelo vírus e ter uma economia vibrante justa que garanta empregos e rendimentos. Os governos têm a posição difícil de balancear estas duas posições em paralelo. Garantir a evolução simultânea destas duas vontades populares é sem dúvida o mais difícil. É o desafio político destes tempos.


Rt: previsões para que te quero
2020/05/09-12:12:17

Os dados que nos chegam todos os dias reportados pela DGS não nos dão o verdadeiro estado de evolução de epidemia. Precisamos de dados mais robustos para que se possa avaliar a evolução do coronavirus em tempo real.

Há uma grandeza, um número, que nos diz a taxa à qual o vírus se transmite, R-zero (R0), o número básico de reprodução. Diz-nos qual o número de pessoas, em média, que uma pessoa infetada contaminará numa comunidade onde não existe imunidade. O valor de R0 pode variar de país para país, de região para região, devido a flutuações na distribuição de idades ou diferenças culturais de interação social.

A versão efetiva deste número, Rt, o número de reprodução num determinado dia t, é o valor atualizado da taxa de transmissão num dado momento. Varia consoante as medidas de controlo da epidemia, isolamento físico, quarentena, restrições de viagens e mobilidade, encerramento de escolas, uso de máscaras, etc, ...

Por isso é fácil perceber o quanto é necessário e relevante ter dados robustos, abertos, peer-reviewd e com metodologias bem estabelecidas, para que possamos tomar decisões racionalmente informadas. Devemos ser críticos relativamente aquilo que comentadores, órgãos de comunicação social e redes sociais nos alimentam todos os dias.

junk food também há junk information.

Precisamos assim de saber em cada dia qual é a real capacidade do vírus em se propagar e consequentemente perceber este número de reprodução efetivo Rt em cada contexto particular, seja de um país, região ou cidade.

Não só o levantamento das restrições a que voluntariamente nos temos submetido depende do conhecimento deste número como também a imposição de mais restrições depende dele. Precisamos de saber.

Se o valor deste número de reprodução efetivo depende das condições locais e culturais onde o vírus se propaga então segue que não há uma solução que dê para todos, o que funciona, digamos, na Suécia, não funcionará em Portugal através de um simples copy&paste. É fácil construir argumentos do tipo: "preferiria proteger a economia e assumir os riscos com a epidemia", "já estou a dar em doido não aguento mais 3 meses", "não vale a penas nos preocuparmos com a economia que ela recupera depois, depois de isto tudo passar e sobrevivermos como comunidade". O espectro de argumentos é grande mas não devemos deixar de formar e participar nesta discussão.

No entanto, em qualquer um dos cenários preferidos, há uma propriedade comum. O regresso à vida normalizada será concretizada por ciclos de abertura-fechamento1 até que se atinja a imunidade de grupo ou se descubra uma vacina.

Para isso precisamos de fazer umas contas e de saber como estimar Rt em cada dia. A figura seguinte mostra o número de reprodução efetivo para Portugal. Há várias maneiras/algoritmos de o calcular. O utilizado para a estimativa da figura foi o trabalho de Luís Bettencourt, Ruy Ribeiro2 que tive conhecimento no maravilhoso texto3 e código em Python de Kevin Systrom.

Não vou repetir as explicações técnicas do Systrom mas deixo aqui as sucessivas distribuições de Poisson usadas no cálculo Bayesiano das estimativas de Rt. Dava uma capa bem gira para um álbum de música ;) ou t-shirt.


Gráficos de Rt para vários países: https://www.nexp.pt/covid19RtWorld/

Dados: https://opendata.ecdc.europa.eu/covid19/casedistribution/csv


Rt para as diferentes regiões do país

Os dados para Portugal são da DAta science for social good PT - dssgpt: https://github.com/dssg-pt/covid19pt-data

(Clicar lado direito do rato e ver imagem.)

P.S. A regra dos trapézias faz das suas no cálculo do HDI.

Duas notas

Deixo também o código em GNU/Octave para futuros divertimentos. Claro que existem soluções enlatadas que permitiriam calcular o Rt sem esforço e.g. o software de estatística R tem uma biblioteca que faz isso mesmo.

Mas qual é a graça de fazer isso. ;)

“Neo, sooner or later you’re going to realize, just as I did, that there’s a difference between knowing the path and walking the path.” - Morpheus

Outra nota (21/04/2020): O texto que estava aqui inicialmente incluía um código em GNU/Octave. Infelizmente tinha um gato ;) Colocarei o código correto nos próximos dias.

Foi só hoje de manhã, enquanto lavava os dentes, que descobri o "erro". Uma coisa coisa estúpida que têm todos os erros depois de descobertos. Fui buscar os valores para estimação ao CSV dos dados na coluna errada. Coisa positiva disto tudo: revirei o código todo do avesso. Até fui olhar para o código da distribuição de Poisson do Octave e que é opensource. Agradeço aos céticos o Twitter que insistentemente me recordavam que o cálculo estaria errado. Tinham razão! Obrigado.


Referências

1. Lockdown Can’t Last Forever. Here’s How to Lift It. April 6, (2020)

2. Luís M. A. Bettencourt, Ruy M. Ribeiro, Real Time Bayesian Estimation of the Epidemic Potential of Emerging Infectious Diseases (2008)

3. Estimating COVID-19's $R_t$ in Real-Time (2020)


Código em GNU/Octave

# Author: Tiago Charters de Azevedo 
## Maintainer: Tiago Charters de Azevedo 
## URL: https://nexp.pt
## Version: *
## Copyright (c) - 2020 Tiago Charters de Azevedo
## This program is free software; you can redistribute it and/or modify
## it under the terms of the GNU General Public License as published by
## the Free Software Foundation; either version 3, or (at your option)
## any later version.
## This program is distributed in the hope that it will be useful,
## but WITHOUT ANY WARRANTY; without even the implied warranty of
## MERCHANTABILITY or FITNESS FOR A PARTICULAR PURPOSE.  See the
## GNU General Public License for more details.
## You should have received a copy of the GNU General Public License
## along with this program; if not, write to the Free Software
## Foundation, Inc., 51 Franklin Street, Fifth Floor,
## Boston, MA 02110-1301, USA.
## Commentary:
## Python implentation: https://github.com/k-sys/covid-19/blob/master/Realtime%20R0.ipynb
## Paper: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0002185#pone.0002185.s001
## Ref.: https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/6/20-0357_article
## PT Data: https://raw.githubusercontent.com/dssg-pt/covid19pt-data/master/data.csv")

clear all ## Clear it!

## load packages
pkg load statistics
pkg load signal

## Get the data from dssg-pt
## system("mv data.csv dataOLD.csv")
## system("wget https://raw.githubusercontent.com/dssg-pt/covid19pt-data/master/data.csv")

## Import all data
x=importdata("data.csv");
n=diff(extractdata(x,"confirmados"));

## Testing with NY data
## https://github.com/k-sys/covid-19/blob/master/Realtime%20R0.ipynb
## nydata
## n=ny;
## n(n==0)=[];

date=extractdata(x,"data");
N=length(n);
today=date{length(date)};

############################################################
## gamma (serial value)
## https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/6/20-0357_article
## https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2001316
############################################################
gamma=1/7;
############################################################

k=6; ## moving average window size (in days) (incubation day=5)
dayinit=k+3; ## check plots 

############################################################
##Rtmavg=mavgrt(n,k,gamma);
##Rtmavg=[4.5 Rtmavg];
############################################################
## Use this for no filtering
##[Rt Rtm RtM]=bayesianrt(diff(n),gamma);

## Use this with k days moving average
[Rt Rtm RtM]=bayesianrt(floor(filter(ones(1,k),k,n)),gamma);

RtPT=Rt;
############################################################
## Make plots
############################################################
figure(1)
clf
hold on

## Ploting HDI region
area([dayinit:N],RtM([dayinit:N]),"FaceColor", [.8,.8,.8]);
area([dayinit:N],Rtm([dayinit:N]),"FaceColor","w")

## Poting Bayesian estimation
plot([dayinit:N],Rt([dayinit:N]),"linewidth",2,"ro")
plot([dayinit:N],Rt([dayinit:N]),"linewidth",4,'r-;R_t: Bayesian estimation;')


## Plot mavg
##plot(Rtmavg,"linewidth",4,strcat("b-;R_t: geometric estimation mavg. (",num2str(k)," days);"))

## Plot some horizontal lines for legibility 
plot([0 100],[1 1],"linewidth",2,'k--')
for i=2:4
  plot([0 100],[i i],"linewidth",1,"k- -")
end

xlabel("t (days)")
title(strcat("COVID19 - R_t (",
             num2str(floor(100*Rt(N))/100),
             "): Running basic reproduction number - Portugal (",
             date{length(date)},
             ")"))
box
axis([dayinit N 0 5])
legend ("location", "SouthWest");
## Write to file
filename= strcat("00-Portugal-Rt-",today,"-COVID19PT.png");
print(filename,"-dpng")

############################################################
############################################################
dayinit=16;
reglist={"confirmados_arsnorte",
         "confirmados_arscentro",
         "confirmados_arslvt",
         "confirmados_arsalentejo",
         "confirmados_arsalgarve",
         "confirmados_acores",
         "confirmados_madeira"};

reglistaux={"Norte",
            "Centro",
            "LxTejo",
            "Alentejo",
            "Algarve",
            "Acores",
            "Madeira"};

for i=1:length(reglist)
  reglistaux{i}

  naux=extractdata(x,reglist{i});
  naux(naux==0)=[];  

  nreg=diff(naux);

  N=length(nreg);
  
#  Rt1=mavgrt(nreg,k,gamma);
#  Rt1=[4.5 Rt1];
  [Rt Rtm RtM]=bayesianrt(floor(filter(ones(1,k),k,nreg)),gamma);

  figure(i+1)
  clf
  hold on

  ##  plot(nreg,"linewidth",4,strcat(colorl{i},'-;',reglistaux{i},";"))

  ## Ploting HDI region
  area(RtM,"FaceColor", [.8,.8,.8]);
  area(Rtm,"FaceColor","w")
  
  ## Ploting Bayesian estimation
  plot([dayinit:N],Rt([dayinit:N]),"linewidth",2,"ro")
  plot(Rt,"linewidth",4,'r-;R_t: Bayesian estimation;')

  plot([0 100],[1 1],"linewidth",2,'k--')
  
  ## Plot mavg
  ## plot(Rt1,"linewidth",4,strcat("b-;R_t: geometric estimation mavg. (",num2str(k)," days);"))

  ## Plot some horizontal lines for legibility 
  plot([0 100],[1 1],"linewidth",2,'k--')
  for j=2:4
    plot([0 100],[j j],"linewidth",1,"k- -")
  end

  xlabel("t (days)\n tca (cc-by-sa)")
  title(strcat(strcat("COVID19 - R_t(",
                      num2str(floor(100*Rt(N-1))/100),
                      "): Running basic reproduction number - Portugal/",
                      reglistaux{i},
                      " (",
                      date{length(date)},
                      ")")))
  box
  axis([dayinit N 0 5])
  legend ("location", "SouthWest");

  ## Write to file
  filename= strcat("0",num2str(i),"-Portugal-Rt-",reglistaux{i},"-",today,"-COVID19PT.png");
  print(filename,"-dpng")

end

system("montage *-Portugal* -geometry +1+1 -shadow Rt-montage-COVID19.png")
function retval=extractdata(x,field)
  m=5; ## data offset
  N=length(x);
  
  for i=1:N
    if (strcmp(strsplit(x{1},","){i},field))
      k=i;
      break
    end
  end

  if (k==1)
    retval={};
    for i=1:N-1-m
      retval{i}=strsplit(x{i+1+m},","){k};
    end
  else
    retval=[];
    j=1;
    for i=1:N-1-m
      aux=str2num(strsplit(x{i+1+m},","){k});
      if (isnumeric(aux))
        retval(j)=aux;
        j=j+1;
      end
    end
  end
end
function [Rt Rtm RtM]=bayesianrt(n,gamma)
## https://github.com/k-sys/covid-19/blob/c26b5a1a432458f9039d3dca185f7ea1ed3d5c2d/Realtime%20R0.ipynb
  N=length(n);
   
############################################################
############################################################
  ## Do the Bayesian!
  ## Corona will tear us apart again.
############################################################
############################################################
  ## initialization

  RtMax=6; #max admissible value for Rt
  NRx=RtMax*100+1;
  Rx=linspace(0,RtMax,NRx); 
  P1=ones(1,NRx);
  
  Rt(1)=4;  ##Rt init value

  Pmatrix=[];
  Rtm(1)=0;
  RtM(2)=RtMax;

############################################################  
  for i=2:N
    Pmatrix=[Pmatrix; P1];
    P2=poisspdf(n(i),n(i-1)*exp(gamma*(Rx-1)));
    P1=P2/(trapz(Rx,P2)); ## normalization  
  endfor
  Pmatrix=[Pmatrix; P1];

  ## Check it out! ;)
  ## Plot Pmatrix distributions 
  ## figure(10)
  ## clf;
  ## plot(Rx,[1:N]'+Pmatrix(1:N,:),"linewidth",2,'k-')
  ## axis([0 5])

  P3=ones(1,NRx);
  logPmatrix=log(Pmatrix);

  k=6; ## Moving average for Bayesian estimation (6 days: incubation period)
  
  for i=1:N  
    P3=exp(mavgmatrix(k*logPmatrix,k))(i,:);
    P3=P3/(eps+trapz(Rx,P3));
    [jj ii]=max(P3);
    iRt(i)=ii;
    Rt(i)=Rx(ii);

    ## ############################################################
    ##   ## Highest density interval (HDI) calcs. 95%.
    ##   ## Not the fasted algorithm, but ok...
    ## ############################################################

    [jx ix]=min(abs(floor(10000*cumtrapz(Rx,P3))-5*100));
    Rtm(i)=Rx(ix);

    [jx ix]=min(abs(floor(10000000000*cumtrapz(Rx,P3))-95*100000000));
    RtM(i)=Rx(ix);
    ## ############################################################
    
  endfor
  
endfunction
function retval=mavgmatrix(n,k, alpha = 0)
  N=min(size(n)); #epidemic days

  if ischar (alpha)
    k=exp(1:k);
  else
    k=(1:k).^alpha;
  endif

  k=k/sum(k);

  retval=zeros(size(n));

  for i=1:max(size(n))
    for j=1:N
      if j<length(k)
        r=length(k)-j + 1:length(k);
        retval(j,i)=    dot(n(1:j,i),(k(r)./sum (k(r))));
      else
        retval(j,i)=dot(n(j-length(k)+1:j,i),k);
      endif
    endfor
  endfor
  
endfunction
function retval=mavgrt(n,k,gamma)
  N=length(n);  
  ration=shift(n,-1)./n;
  [m1,z] = filter(ones(1,k),k,[1:N].*log(ration));
  [m2,z] = filter(ones(1,k),k,[1:N].^2);
  retval=(gamma+m1([1:N-1])./m2([1:N-1]).*[1:N-1])/gamma;
end


Quando a realidade se serve
2020/05/07-19:14:28

... do absurdo para chegar à verdade.

Numa notícia que saiu ontem (06/05/2020) no DN ficamos a saber pelo estudo do BdP que a "pandemia penaliza mais o rendimento dos ricos do que dos pobres". Ora vejamos como segue a demonstração.

Comecemos pela tese que se prova no relatório do BdP: pandemia penaliza mais rendimento dos ricos do que dos pobres.

As hipóteses são:

  1. a doença não se agrava;
  2. não existe uma segunda vaga;
  3. não há extensão do regime de lay-off;
  4. não há ainda mais despedimentos;
  5. não há mais desemprego;
  6. não se encerram mais empresas.

O teorema do BdP é este: se 1, 2, 3, 4, 5, 6 são verdade então a pandemia penaliza mais o rendimento dos ricos do que dos pobres.

A lógica de primeira ordem funciona assim. Basta que uma das premissas seja falsa para que a conclusão não seja suportada. A falha de uma delas vem já com a segunda vaga de contágio que está aí a chegar1.

Mas mostra outra coisa surpreendente, revelada na conceção do BdP, e talvez não só dele, que o rendimento dos ricos está inerentemente dependente do trabalho dos pobres.

Tal como na crise de 2008 a pandemia penalizará mais o rendimento dos pobres do que o rendimento dos ricos.

De tão evidente pena se usa o absurdo para mostrar o que toda a gente já sabe. Que por vezes para dizer a verdade nem sequer é preciso mentir.

1. Ver e.g. o estudo efetuado pela epidemiologista Gabriela Gomes,


Love, death and robots
2020/05/05-11:17:01

Se estávamos preocupados que robots tornassem o trabalho obsoleto agora temos mais razões para nos preocuparmos, empresas e industria vão tomar esta oportunidade para substituir tarefas exigentes executadas por "humanos imperfeitos e geradores de pouco lucro" por máquinas ou algoritmos de inteligência artificial.

Mas podemos ter algumas razões para esperança.

Com tantas pessoas ao mesmo tempo a perderem o emprego, por termos decidido cuidar dos mais vulneráveis na nossa sociedade e que foram atiradas para fora do acesso ao trabalho, foi criado um novo sentido colectivo de solidariedade e um aumento da consciência e.g. pela proposta de criação de um RBI de emergência, de que aqueles trabalhadores essenciais que mantêm a nossa vida de todos os dias a funcionar são de facto importantes e muito mal pagos.

O desemprego gerado pela evolução da epidemia pode ser entendido não como um defeito ou incapacidade dos trabalhadores mas como consequência de um desastre natural que está fora do controlo de qualquer um deles. Isto catalisará uma voz política reforçada porque de facto, como no passado, têm direito ela.

Mas o desafio permanece em tornar a mudança real nova se tomarmos o combate a esta crise económica não num "novo" esquema para salvar bancos ou instituições financeiras como aconteceu em 2008, mas para suportar o regresso a uma vida desejada pelas pessoas.

Temos o direito de exigir um acordo melhor desta vez.


Eliminar o COVID19: timing e deslocações
2020/05/02-11:59:17

Há um número que pode ser calculado todos os dias e que nos diz a taxa à qual o vírus se transmite, o número básico de reprodução. Diz-nos qual o número de pessoas, em média, que uma pessoa infetada contaminará numa comunidade i.e. um número de reprodução pessoa-pessoa. Esse número chamado de número básico de reprodução, Rt, o número de reprodução num determinado dia t, é o valor atualizado da taxa de transmissão num dado momento. Varia consoante as medidas de controlo da epidemia, isolamento físico, quarentena, restrições de viagens e mobilidade, encerramento de escolas, uso de máscaras, etc, ...

Precisamos assim de saber em cada dia qual é a real capacidade do vírus em se propagar e consequentemente perceber este número de reprodução efetivo Rt em cada contexto particular, seja de um país, região ou cidade e comunidade.

Não só o levantamento das restrições a que voluntariamente nos temos submetido depende do conhecimento deste número como também a imposição de mais restrições depende dele. Como esse número de reprodução efetivo depende das condições locais e culturais onde o vírus se propaga então segue que não há um cenário que dê para todos através de um simples copy&paste. Uma solução que funciona para uma dada região ou comunidade não funcionará sem modificações específicas noutra.

Uma coisa parece certa em qualquer um dos cenários preferidos, o regresso à vida normal será concretizada por ciclos de abertura-fechamento até que se atinja a imunidade de grupo ou se descubra uma vacina.

Para isso precisamos de fazer umas contas e de saber como estimar Rt em cada dia.

Precisaríamos assim de considerar a transmissão da doença entre indivíduos dentro das comunidades e também entre comunidades diferentes. Aqui entenda-se o termo comunidade como uma partição da população onde o contacto social ou de deslocação entre membros é maior do que entre duas comunidades. E.g. zona metropolitanas. Esta ideia é essencial para se definir o isolamento sanitário, como o vírus se propaga utilizando um hospedeiro, restringindo naturalmente a duração de viagens em momentos críticos da evolução, reduz-se a propagação e consequentemente o número básico de reprodução.

O COVID19 pode ser assim eliminado se o número de reprodução comunidade-comunidade for menor do que um i.e. o número esperado/médio das comunidades que podem ser infetadas por um única comunidade.

Se conseguirmos determinar esse número de reprodução comunidade-comunidade podemos usá-lo para justificar as medidas de contenção a que voluntariamente nos temos imposto.

Esse número foi estimado num artigo recente com título "Eliminating COVID-19: The Impact of Travel and Timing" e está disponível para download no arquivo de preprints arXiv.

Esse número de reprodução comunidade-comunidade é proporcional à taxa de viagem entre comunidades e exponencial no atraso de tempo na tomada de ação sobre uma comunidade.

Assim a redução de viagens e a velocidade com que as comunidades tomam decisões têm um papel decisivo no controlo e fim da epidemia.

A análise sugere também que não é necessário impor medidas agressivas de afastamento social em todo o território ao mesmo tempo para eliminar o coronavirus mas apenas nas comunidades onde se detete a contaminação. Quando mais cedo se implementarem essas medidas nas comunidades infetadas mais pequena será a duração da manutenção dessas restrições sanitárias. Se agirmos rápido nas comunidades infetadas, incluído as que serão infetadas no futuro, o número de comunidades com infeções ativas, e logo o número de comunidades onde é necessário intervir, decairão exponencialmente com o tempo. A eliminação neste caso mantém-se, é um ponto fixo da evolução, mesmo depois das restrições de distanciamento físico terem sido levantadas.


COVID19: Estimativa Bayesiana do número de reprodução efectivo (Rt) para as regiões/Portugal
2020/04/29-14:05:14

A estimativa Bayesiana do número de reprodução efectivo (Rt) para as diferentes regiões de Portugal (regiões com >10 infectados, take it with a pinch of salt) pode ser encontrada aqui: https://nexp.pt/covid19RtPortugalRegions/

Para os globais consultar: Rt: previsões para que te quero.

Os dados usados são disponibilizados pelo Jornal Público num trabalho de Rui Barros, Dinis Correia e Hélio Carvalho: Como está a evoluir a pandemia de covid-19 em ___?

Alguns plots

Referências

Mas há mais...


Liberdade
2020/04/27-09:17:10

Faz hoje 46 anos. 46 anos tem o dia em que festejamos a liberdade que temos e aquela que desejamos. E por isso hoje, para além daquela pela qual vivemos todos os dias e que queremos festejar, podemos falar daquela que não temos mas que devemos ter. Aquela que não temos é praticada pela censura, a que temos permite-nos falar sobre ela. A censura serve para controlar, a de hoje tem o mesmo objetivo que a do passado, funciona da mesma maneira, mas veste hoje outras roupas de vanguardismo oportunista.

Diferente mas tem o mesmo efeito, o de controlar a opinião pública, garantir a seguimento doutrinal da população para manter o poder estabelecido.

O Triunfo dos Porcos de Orwell tem sido muito citado nestes dias como ilustração da imposição do recolhimento epidémico a que fomos obrigados de modo conter a propagação do vírus, equivalendo-o ao regime totalitário Estalinista. Mais interessante para os tempos que vivemos é o prefácio que não chegou a ser publicado na 1ª edição. Fala-nos da censura em sociedades não totalitárias.

A formulação desta ideia segue os passos de Orwell nesse prefácio. Diz Orwell que as ideias não populares podem ser silenciadas e factos inconvenientes podem nunca ser relatados. Vemos isso todos os dias quando não chegam aos títulos de jornais as notícias que por mérito próprio lá deveriam estar. Não porque o governo ou qualquer autoridade tenham impedido a sua publicação mas porque existe um acordo tácito de que 'tal não iria acontecer' que esse facto não seria mencionado. No que toca à imprensa e nas redes sociais isso é fácil de perceber, temos diariamente essa sensação. Não é a primeira vez que se ouve afirmação que as redes sociais são lixo quando podem ser, e são episodicamente, um meio fundamental de proximidade, colaboração, abertura e transparência de democracia.

Este tipo de coisas não é um bom sintoma. Em particular porque ninguém deve ter esse poder de censura e não será por medo de persecuções legais mas por medo da opinião pública que essa informação não vê a luz do dia. E este é um assunto que não tem tido muita discussão nem a que merece entre nós.

Claro que não vivemos num estado totalitário e existe liberdade de expressão e de imprensa mas as restrições que existem à divulgação nos OCS de opiniões discurdantes do mainstream são em grande medida voluntárias.

Há sempre num dado momento uma ortodoxia em vigor, um corpo de ideias pelo qual se assume que todos os bem-pensantes e opinadores seguem e aceitam sem o questionar.

O paradoxo surge e é ainda afirmado na proposta que todas as opiniões devem ouvidas por muito impopulares ou anti-humanistas que sejam. O ressurgimento na comunicação social de ideias da extrema-direita mostra isso mesmo. A extrema-direita tem acesso aos títulos dos OCS pelo dever da informação mas não pelo direito ao contraditório nem à intolerância dos tolerantes. Parte dessa benevolência de tratamento deve-se ao facto de existir pouca vontade em perturbar diretamente essa ortodoxia estabelecida em vigor, a extrema-direita aproveita-se dela para depois mais tarde a recuperar em benefício próprio. Os ortodoxos vão na cantiga e partilham o jogo do apontar o dedo vejam-os-fascistas.

Mas o caso das opiniões discordantes nesta ortodoxia tem um tratamento completamente diferente e é silenciada com surpreendentemente eficiência. A uma opinião verdadeiramente fora de moda nunca é dada justa atenção nos jornais ou televisões. Particularmente em sociedades nas quais se tem liberdade e as populações não podem ser ameaçadas fisicamente. O controlo tem de ser subtil, os fazedores de opinião sabem disso e de arregimentar mentes. Numa sociedade onde a escolarização da população aumenta desde 74 é de uma constatação gritante o plano dos sacerdotes seculares em manter os lugares que sempre ocuparam e manter a mansidão média.

Neste momento o que é exigido à ortodoxia dominante é a admiração acrítica pelo poder económico, a admiração é concretizada tanto à esquerda como à direita numa actividade constante de manter os cidadãos desinformados, passivos e obedientes e que toma sempre novas concretizações. O episódio recente das propostas da abertura da economia na pandemia em tempo de restrições para salvar vidas é revelador da opinião veiculada por sacerdotes seculares nas TVs e artigos de opinião. Vivemos tempos especiais onde comunistas apelam à economia de mercado e liberais defendem a luta de classes.

Claro que ainda temos uma ou outra voz desalinhada de críticos mas pouco a pouco perderão o seu ímpeto e sistematicamente remetidos no resultado silencioso e inconsequente das suas críticas deixarão de aparecer.

Tanto as democracias mais capitalistas ou mais socialistas tomam como tácito este acordo. As pessoas normais porque não estão suficientemente interessadas nestas ideias, têm as suas vidas para viver, não estão para ser intolerantes acerca delas, têm vagamente a posição de que toda a gente tem direito à sua opinião e por isso são as próprias pessoas que sendo as guardiãs da liberdade que começam na teoria e na prática a despreza-la e a perdê-la .

Ao aceitar métodos que reconhecemos como totalitários pode em breve chegar o tempo em que serão usados contra nós.


Criado/Created: 2018

Última actualização/Last updated: 24-06-2020 [09:15]


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(c) Tiago Charters de Azevedo