Pelo centenário do nascimento de Murray Bookchin

Nota prévia

Faz hoje 100 anos da data nascimento de Murray Bookchin. Anarquista americano pioneiro do movimento ecologista e eco-socialista, inspirador da democracia directa socialista libertária em Rojava.

Neste texto, publicado na revista Libertária, faltou, por falta de espaço, a referência à emulação pelos pitagóricos de um touro por descoberta dos números irracionais, o eterno retorno de Nietzsche e ainda o teorema de Liouville essencial para a descrição de sistemas da física chamados de sistemas Hamiltoneanos. Fica para trabalho de casa numa versão mais completa do texto.


A dissolução da autoridade

Hoje o nosso horizonte mostra-nos duas perspectivas em conflito, a primeira de um mundo harmonizado com a sensibilidade ecológica baseada no compromisso com as comunidades, ajuda mútua e a tecnologia e a segunda a antropogénese do aquecimento global, o ressurgimento dos movimentos extrema direita e o espectro do holocausto e a ameaça nuclear. Parece que para termos futuro o nosso mundo ou sofrerá uma mudança revolucionária radical tão profunda de tal forma que a humanidade se transformará completamente nas suas relações sociais e na própria conceção da vida ou sofrerá um Apocalipse que terminará com o lugar permanente da humanidade no planeta.

Bookchin fala-nos da proposta desse futuro no livro “The Ecology of Freedom: The Emergence and Dissolution of Hierarchy”, na mitologia da desintegração e na dissolução da autoridade. As linhas que se seguem vão também por esse caminho.

A mitologia nórdica conta-nos uma história de um tempo em que a todos os seres estava atribuı́do um lugar terreno: aos deuses um domı́nio celeste, Asgard, aos homens a terra, Midgard, por baixo ficava Niffleheim, o domı́nio escuro e gelado dos gigantes, anões e mortos. Todos estes domı́nios estavam ligados por um enorme freixo, a Árvore do Mundo. Tinha ramos que chegavam ao céu e raı́zes que alcançavam as profundezas da terra. Apesar de constantemente mutilada por animais permanecia sempre verde, renovada por uma fonte mágica que continuamente lhe dava vida.

Os deuses que formaram este mundo presidiam na realidade a um precário estado de tranquilidade. Baniram os seus inimigos, os gigantes, para a terra do gelo, Fenris o lobo foi preso e a grande serpente de Midgard afastada e mantida a uma distância segura. Apesar de todos os perigos ocultos prevalecia uma paz geral e havia tudo em abundância, tanto para deuses, para homens e para todas as coisas vivas.

Odin, o deus da sabedoria, reinava sobre todas as divindades, o mais forte e o mais sábio, supervisionava batalhas humanas e escolhia o mais bravo dos perdedores para festejar consigo na sua grande fortaleza, Valhalla. Thor, filho de Odin, era não só um guerreiro poderoso, protetor de Asgard contra os gigantes inquietos, mas também era uma divindade defensora da ordem, fazendo cumprir a fé entre os homens e os tratados. Havia deusas e deuses com fartura, da fertilidade, do amor, da lei, do mar e dos barcos e uma multiplicidade de espı́ritos animistas que habitavam todas as coisas e todos os seres da terra.

Mas a ordem do mundo começou a partir-se quando os deuses, desejosos de riqueza, torturaram a bruxa de Gullveig, a fazedora de ouro, e obrigaram-na a revelar os seus segredos. E a discórdia desenfreada entre deuses e homens começou. Os deuses quebraram os seus juramentos; a corrupção, a traição, a rivalidade e inveja dominaram o mundo. Com a quebra da unidade primordial, os dias de Asgard e Midgard estavam contados. A violação inexorável da ordem do mundo levava a Ragnarok – a morte dos deuses sob Valhalla. Os deuses caíram numa batalha terrı́vel com os gigantes, o lobo Fenris e a serpente de Midgard. Com a destruição de todos os combatentes a humanidade pereceria também e nada sobraria para além das pedras, oceanos transbordantes num vazio frio e escuro. Tendo pois o mundo se desintegrado no seu princípio, ressurgiria renovado, purgado dos seus males anteriores e da corrupção que o destruiu. O novo mundo que emergiria do vazio não sofreria outro fim catastrófico porque a segunda geração de deuses e deusas aprenderiam dos erros dos seus antecedentes.

O profeta que nos conta a história diz-nos que a humanidade daqui para a frente viveria em alegria para sempre.

Nesta cosmografia parece estar o tema habitual do eterno retorno, uma sensação que o tempo anda à roda e se repete perpetuamente em ciclos de nascimento, crescimento, morte e renascimento. O que a lenda explora é uma área muito pouco explorada da mitologia, a mitologia da desintegração.

O cristianismo selou definitivamente o conceito de tempo histórico linear e unidimensional, numa orientação irreversı́vel e um fim tendencial pré-determinado, a criação ab initiio e a incarnação como explicação única total e a parúsia do messias no fim dos tempos, com ascensão dos escolhidos e a danação dos restantes. Mais ou menos desfigurado mas mantendo a estrutura inicial este cenário temporal linear haveria de ressurgir em ideologias afirmando a unidirecionalidade do progresso, das luzes, dos ventos e do fim da história, mas a lista está longe de ser completa, há mais exemplos. Não podemos afirmar a existência de um limite no fim na história da humanidade, um absoluto hegeliano ou um comunismo marxista e nem a confiança no progresso inevitável no compromisso do iluminismo dos avanços tecnológicos.

O que nos assombra nestes mitos de desintegração não são as histórias que relatam mas as profecias que fazem. Tal como os Nórdicos, ou os medievais, sentimos que mundo está também a partir-se, institucionalmente, culturalmente e fisicamente. Se estamos perante uma nova era paradisı́aca ou uma catástrofe ainda não é claro, acho que nunca será, mas é difı́cil acreditar num compromisso entre o passado e o futuro neste presente ambı́guo.

Para obter a sabedoria Odin bebe da fonte mágica que alimenta a Árvore do Mundo. Em troca tem que perder um olho. O simbolismo aqui é claro: Odin tem de pagar um preço, assumir uma penalização, para adquirir o conhecimento que lhe dá o controlo do mundo natural e que viola a prı́stina harmonia natural. Mas a sua “sabedoria” é de um homem de um olho só. Só vê um lado.

Renúncia à honestidade da perceção em troca da exactidão, predição e acima de tudo manipulação; tornar-se num certo sentido no usual do termo “ciência”. Esta ciência que hoje vigora é a visão de um só lado, de um deus de-um-só-olho, cuja vantagem fundamenta a dominação e o antagonismo e não a co-igualidade e a harmonia. Na lenda nórdica a “sabedoria” levou ao Ragnarok, à queda dos deuses e à destruição do mundo tribal. Nos nossos dias a sabedoria de um só olho levou-nos à catástrofe ecológica e à possibilidade concreta da extinção da humanidade. Neste percurso de-um-só-olho conseguimos obter mais liberdade do que os nossos antepassados: temos base material alargada para mais tempo livre, fruição, segurança e potencial para ainda mais liberdade em ligação com a natureza.

Talvez o grande projecto do nosso tempo seja o de abrir o outro olho: ver tudo clara e completamente.

As chamas de Ragnarok purificaram o mundo nórdico. As chamas que ameaçam engolir o planeta deverão deixá-lo sem esperança e hostil à vida como uma testemunha morta de um fracasso cósmico.

Ficamos assim com duas alternativas. Podemos tentar acalmar o guerreiro Odin, pacificá-lo e à sua corte e talvez ventilar Valhalla com o sopro da razão e reflexão, tentar arranjar ou emendar os tratados esfarrapados que suportam precariamente o mundo e trabalhar com isto o melhor que consigamos. E depois esperar pelo nosso esforço que Odin se convença a largar a sua lança, a largar a sua armadura e que se preste à doce voz do entendimento e do discurso racional.

Ou podemos usar o nosso esforço para uma reviravolta radical: depor Odin cuja cegueira parcial é evidência de uma sociedade sem esperança e abandonar os mitos contratuais que falsamente harmonizam uma sociedade inerentemente hierarquizada e dividida e ficar assim com a responsabilidade de criar um novo mundo e uma nova sensibilidade baseada na reflexão e na ética da qual somos herdeiros de uma evolução em direção à consciência partilhada.

No entanto, não chega retirar a poesia de que a revolução no nosso tempo necessita do futuro e também não precisamos de abandonar nenhuma das teorias lineares anteriores que bem serviram a humanidade ou uma qualquer outra teoria de noção circular de causalidade que junta o inı́cio com o fim.

Temos apenas de esculpir a razão coletiva no exemplo, carregada de sensibilidade individual e socialmente emancipatória, seja ela linear ou circular.

Tiago Charters de Azevedo Lisboa, 10 de Maio de 2020

Criado/Created: 13-01-2021 [17:37]

Última actualização/Last updated: 12-02-2021 [09:28]


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